Uma lente de captura quebrada. Acaba aí.
Os sentimentos presos entre querer ser e não ser, entre querer lembrar e ser incapaz
Somente quebrado assim, capturo sempre o presente, sem pretensões de reflexões futuras, com eternas rupturas passadas
Não que faça sentido, e aprendi julgo que tarde que praticamente nada tenha mesmo sentido; dizem cruel a natureza enquanto apenas indiferente, como o universo - o que acontece, acontece - a floresta provê, o animal se alimenta, morde com dentes macios uma carne dura, as pequenas doses de frescor tocando sua pele nos espaços em que o sol não queima; sobrevivemos terremotos para morrer caindo da escada, nadamos mares inteiros para nos afogar no fundo da pequena lagoinha formada nesse copo, as montanhas sempre caminhos parecem a cada olhar e sopro de vento mais distantes e intransponíveis, uma luta incessante do tesão de viver e da melancolia pétrea de não acontecer e observar tudo escorrer.
Quero correr em corpos, ruas e curvas; percorrer essas noites labiosas e inéditas nesses becos cansados de serem repetidos; essa cidade me arrebenta como quase mais nada nesse mundo, é quase um vício, ou seria isso um disfarce para não procurar se reabilitar? Os livros das boas memórias vão lentamente perdendo páginas, até minhas dores ando cansado de preservar; mas sou extremamente bom em andar e péssimo em escolher um destino.
Ando, inclusive, questionando quais decisões foram minhas e quais foram a entrega do meu corpo ao arrastar dessas espirais, se perdendo ao se levar por algumas correntes e ao se prender noutras. Amei primeiro e fui amado? Amaram-me e me entreguei? Corri ao encontro, esperei sentado nos degraus, subi mais morros que sei nomear, a paciência de uma estátua, a solidão dessa rua do teatro quando não há mais peças; costumava ter a certeza que nunca me apaixonei sozinho, me questiono hoje se isso fez diferença.
Tenho tantas memórias, não mais tanto espaço na cabeça, ou no coração, cansado demais para me manter parado, sempre um quê de rebelde e revoltado dizem, insatisfeito com a forma do mundo, mas não é nem isso, uma fúria ensandecida pelo sabor do vento - uma fogueira que perde a percepção de si; em certos momentos é enlouquecedor pensar no tempo da humanidade, suas eras, beira o bizarro, daí conspiram, uma fantasia mais digerível que a realidade; algo que por mais absurdo que seja, ainda é mais domesticado. Tenho certeza que acalenta a quem acredita. Eu prefiro o amargo.
O mundo é mais louco que a imaginação.