o que consegue com toda essa fúria?
sua mão trêmula não escreve, seus olhos virados nada focam, sua respiração forçada rasga o peito, seu coração fechado atropela a vida
tudo isso leva ao quê?
o coração contra o mundo, o corpo contra a parede
o cansaço na alma, o peso no peito
o que adianta?
fujo da repetição, corro do reflexo
a triste história em espiral, em círculos que se consomem
odeio me repetir
dei a volta, que horrível
o relógio não para nessa esquina e em nenhuma outra, não para no esgoto que percorre a rua, não para na água que escorre em meu corpo
não me segura se...
palavras vertidas em raiva pesam o dobro agora, pesarão mais depois
por isso a fúria devora, come sua raiva e cospe o resto de seu ser
a sobrevivência é ilusória
como um brinquedo quebrado que não sabe mais andar para frente
como um vidro estilhaçado que me reflete em todos os seus ângulos capturando minha frivolidade
essa última máscara de carne que por trás só há osso
o desespero já é estampado
todo controle foi descartado pra que não perdesse todo o controle
não preciso dizer que foi em vão
e digo mesmo assim. foi em vão
as escritas em seu peito (no pergaminho vivo de tua pele) se tornaram runas indecifráveis
um idioma estrangeiro no teu ser nativo
teu ser estranho no teu solo nação
o tempo não acomoda
são todas essas voltas e torturas e tonturas e bares e passados...
é tudo sobre o tempo?
o sangue ressecado em tua ampulheta
uma explosão vã nesse afã de valer o tempo
o que é o passado senão um borrão em minha mente
todas essas lembranças vistas por uma lente embaçada de lágrimas
essa água vai lavar meu corpo,
vai lavar meus pés cansados
mas não lava o cansaço em meus ossos,
o cansaço em minha alma
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
Iria. Poderia. Ia tantas coisas. O ano virou comigo no mirante. É apenas o mirante da cidade, você não entenderia, talvez tu entendesse. A brasa do cigarro trepida com o vento, eu nem fumo mas esse aqui acendi e assim tenho que apagá-lo. Em algum momento minha vida começou a girar. E até agora não parou. Só queria vomitar de tão tonto que isso me deixa. Achava que era uma espiral descendendo na loucura, ou insanidade, ou insensatez. Talvez desejasse o início de um furacão, tantas coisas podem acontecer com um furacão. Agora acho mesmo que era um descarga sendo feita e os giros só vão acelerar até que eu escorra pelo esgoto. Meus olhos parados não entregam o colapso de minha mente. Trago o ar noturno e gélido. Acho que acertei dessa vez. Sorrio um sorriso doente. Morrerei na lentidão das coisas ou na velocidade de um carro. Talvez devessem enterrar essa cidade inteira. Deixar para gerações futuras desenterrarem toda essa dor gritante de todas as pedras. Entrei num estado que não sei dizer mais se tenho dores de cabeça e já passei da parte que me importo. Minha mente é um grande salão vazio, o chão de madeira, o teto em cúpula a perder de vista, consumi tudo que havia. As coisas esquecidas representadas por nada. Há apenas a leve marca de sua passagem como a marca de uma mão sobre um tecido. E, assim como a marca, nada ela me diz além de sua ausência. Sei de tudo que esqueci numa superfície que só reflete, que não me deixa ver além. Lembre-se da morte porque de mais nada se lembrará. Perguntaria se palavras para ecoar sem canções de resposta fariam sentido, mas já sei que não. Tenho todas as respostas toscas para minhas perguntas imbecis. Grande ilusão não precisar nem me perguntar. Quando pararemos de fingir que não estamos em um trem que só acelera? Se todos os tremores do corpo e do peito fossem explicados pela força da locomotiva contra o aço...
Um dia cinza em uma vida cinza. Um fim quebrado para um ano em estilhaços.
Um dia cinza em uma vida cinza. Um fim quebrado para um ano em estilhaços.
Se for chover, choverá em mim. Se for fazer sol, não fará sol. Não há nada que remova essa fúria incrustada nos ossos. Não há luz que espante as sombras dentro das sombras. Quiçá somente as aumentaria. Desvanecendo como sonho é a minha lucidez na névoa da manhã. Esse mundo de tato tão real e lógica tão onírica. As obscenas cicatrizes de concreto. Tiraria minha sorte no maço de cigarro vermelho, mas por não querer ou não importar, o maço foi direto ao lixo em um golpe de punho.
A brasa some entre o cigarro e minha pele, mas não dói. Não dói tanto quanto todo o resto. Não dói tanto quanto essa névoa que oculta o céu estrelado. Não dói tanto quanto o céu estrelado. Não dói tanto quanto a brisa leve no rosto em um dia ameno. Não dói tanto quanto as portas para sempre fechadas de uma loja que nem frequentava. Não dói tanto quanto as pátinas cavadas pelo tempo na face de todas as janelas. E assim, aprendi, apanha-se da vida. Entre as batidas do coração e as batidas do relógio.
domingo, 11 de novembro de 2018
Estou febril, talvez delirando. Diria de novo mas já perdi as contas, pode ser a primeira vez. O quarto gira no sentido contrário da minha cabeça. É uma rejeição natural do meu corpo à realidade. Quando virá as convulsões ou o desespero? Virão? O vento espalha meus pedaços, não me lembro de ter um ventilador ou de ter aberto as janelas. O sopro uiva em seu caminho por meu labirinto desfigurando tudo que toca.
Não sei se minha doença reside no corpo ou na alma. Nos meus olhos ou na minha mente. Se o mundo se dissolve frente a meus olhos de ampulheta, tudo são ponteiros que circulam numa velocidade excruciantemente lenta, inexoráveis em seu compassar.
A cadência de minha respiração é a cadência dos raios solares desvanecendo, é a cadência dos corpos indo ao chão, é a cadência do meu desespero. O ritmo do escorrer da chuva harmoniza com meu caos.
Não há decadência no fundo do poço. Na superfície o chão é o limite.
As emoções se diluíram e escorreram pelas rachaduras na minha alma agora rochosa. Correr não faz mais do coração o tambor insano e delicioso. A cadeia é a liberdade dessa estrada sob meus pés. Cheio de força e vazio de vontade, o que fiz comigo?
Não sei em mais quantas linhas descrever desespero, foge de minha compreensão essa sensação absoluta quando já encarei, bati de frente, corri,aceitei. desespero-me de desesperar
Dormir. Antes um portal de medo nascido de não saber quem acordaria, tornou-se a esperança de acordar e de fato não reconhecer o rosto no espelho.
Nada irá se enterrar por si só. Enterrei todos os outros, quem me enterrará? Não pertenço ao mar, meus mares são de morro, serão onde morro. O mundo que me sepulte em sua cruel naturalidade.
Minhas mãos não tremem, minha mente que anda trêmula e cambaleante. Não me conecto a mais nada, nem as frases consigo mais conectar; como conectaria essa cabeça quebrada? Vacilante, meu pensamento apoiado em seus joelhos se levanta cego para não ficar no chão, que morra de pé, que morra em vão.
As lágrimas não vão cavar seu leito em meu rosto, não há tempo.
Perdi-me nos caminhos circulares que percorri disposto.
minha loucura e minha lucidez deram espaço a uma coisa que me mata,
uma coisa que não posso chamar de loucura perdida a leveza, a fluidez que equilibra e dança em caos
vendida a lucidez em madrugadas que se recusam a fenecer sob o sol, que se arrastam pelo dia, que se cravam em meu peito, costas e braços, num aperto frio que o calor queimando a pele não faz mais que ressaltar
combinadas nesse desespero torpe, o pior de dois mundos, o otimismo que se finda cândido
beira o cômico cometer todos esses erros, não sei o que é mais absurdo.
Este corpo retalhado é um pequeno reflexo desta mente remendada.
Absorvi tudo que alimentei de mim. Devoro meus defeitos para crescê-los sórdidos e retorcidos.
Sou um castelo vazio ruindo por dentro.
Minha falta de ar não é medo, é fúria contida, desmedida em sua natureza
Como loucura e espiral não são escritas com as mesmas letras?, se me sinto rodar a cada segundo que passa
Olha o tamanho de minhas mãos e de minha boca. Veja o tamanho do mundo. Mãos pequenas para uma ambição tão grande. Uma boca pequena para a fome imensurável.
me refugio, se há algum refúgio, nas águas
escorrendo em meu corpo levam muito mais que a sujeira cotidiana
em minutos erodem todas minhas crostas
expõem e conturbam o meu cerne
Como me pedir para dormir se há algo me consumindo vivo?
Corpo egoísta de uma mente tola.
Carne sensata de uma alma desmedida.
Ver-se no ponto de lutar contra si para perder de qualquer jeito.
Não sei se minha doença reside no corpo ou na alma. Nos meus olhos ou na minha mente. Se o mundo se dissolve frente a meus olhos de ampulheta, tudo são ponteiros que circulam numa velocidade excruciantemente lenta, inexoráveis em seu compassar.
A cadência de minha respiração é a cadência dos raios solares desvanecendo, é a cadência dos corpos indo ao chão, é a cadência do meu desespero. O ritmo do escorrer da chuva harmoniza com meu caos.
Não há decadência no fundo do poço. Na superfície o chão é o limite.
As emoções se diluíram e escorreram pelas rachaduras na minha alma agora rochosa. Correr não faz mais do coração o tambor insano e delicioso. A cadeia é a liberdade dessa estrada sob meus pés. Cheio de força e vazio de vontade, o que fiz comigo?
Não sei em mais quantas linhas descrever desespero, foge de minha compreensão essa sensação absoluta quando já encarei, bati de frente, corri,
Dormir. Antes um portal de medo nascido de não saber quem acordaria, tornou-se a esperança de acordar e de fato não reconhecer o rosto no espelho.
Nada irá se enterrar por si só. Enterrei todos os outros, quem me enterrará? Não pertenço ao mar, meus mares são de morro, serão onde morro. O mundo que me sepulte em sua cruel naturalidade.
Minhas mãos não tremem, minha mente que anda trêmula e cambaleante. Não me conecto a mais nada, nem as frases consigo mais conectar; como conectaria essa cabeça quebrada? Vacilante, meu pensamento apoiado em seus joelhos se levanta cego para não ficar no chão, que morra de pé, que morra em vão.
As lágrimas não vão cavar seu leito em meu rosto, não há tempo.
Perdi-me nos caminhos circulares que percorri disposto.
minha loucura e minha lucidez deram espaço a uma coisa que me mata,
uma coisa que não posso chamar de loucura perdida a leveza, a fluidez que equilibra e dança em caos
vendida a lucidez em madrugadas que se recusam a fenecer sob o sol, que se arrastam pelo dia, que se cravam em meu peito, costas e braços, num aperto frio que o calor queimando a pele não faz mais que ressaltar
combinadas nesse desespero torpe, o pior de dois mundos, o otimismo que se finda cândido
beira o cômico cometer todos esses erros, não sei o que é mais absurdo.
Este corpo retalhado é um pequeno reflexo desta mente remendada.
Absorvi tudo que alimentei de mim. Devoro meus defeitos para crescê-los sórdidos e retorcidos.
Sou um castelo vazio ruindo por dentro.
Minha falta de ar não é medo, é fúria contida, desmedida em sua natureza
Como loucura e espiral não são escritas com as mesmas letras?, se me sinto rodar a cada segundo que passa
Olha o tamanho de minhas mãos e de minha boca. Veja o tamanho do mundo. Mãos pequenas para uma ambição tão grande. Uma boca pequena para a fome imensurável.
me refugio, se há algum refúgio, nas águas
escorrendo em meu corpo levam muito mais que a sujeira cotidiana
em minutos erodem todas minhas crostas
expõem e conturbam o meu cerne
Como me pedir para dormir se há algo me consumindo vivo?
Corpo egoísta de uma mente tola.
Carne sensata de uma alma desmedida.
Ver-se no ponto de lutar contra si para perder de qualquer jeito.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Não finda agora o ano, tampouco termina a vida. Mas já sei que a palavra por mim mais dita neste ano foi socorro. E sempre a ninguém. Um socorro gritado no carro fechado. Pensado ao banho. Sussurrado ao deitar. Nunca antes acordei chorando. Que horror. É ter os temores tão vivos que as portas do sono nada seguram. Se mais desespero, se mais agonia, como mensurar quão ruim? Em que se contam as batidas que o coração perde ou se mede o peso dos suspiros?
Ah... Endurecer, endurecer, endurecer, travar a mandíbula fechando o coração, essa é a forma de sobreviver. O corpo teso, a alma dura. Os dentes que me abocanhavam nem babam mais, perdido meu gosto nesse temor. Minhas mãos não tremem. O batimento silencioso. Quando este teto cairá sobre minha cabeça? O silêncio não me mata. O suave escorrer da areia na ampulheta rasga meu peito mais que todas essas facas. Cada segundo parado minha mente é dilacerada. Pra quê, ou melhor, como se preocupar com a morte se a loucura é um perigo tão maior? Tão mais próximo, tão íntimo...
Nas chamasda loucura insanidade fúria me perco. Todas essas voltas num círculo que vai se fechando. A violência do tempo me espanca.
Ah... Endurecer, endurecer, endurecer, travar a mandíbula fechando o coração, essa é a forma de sobreviver. O corpo teso, a alma dura. Os dentes que me abocanhavam nem babam mais, perdido meu gosto nesse temor. Minhas mãos não tremem. O batimento silencioso. Quando este teto cairá sobre minha cabeça? O silêncio não me mata. O suave escorrer da areia na ampulheta rasga meu peito mais que todas essas facas. Cada segundo parado minha mente é dilacerada. Pra quê, ou melhor, como se preocupar com a morte se a loucura é um perigo tão maior? Tão mais próximo, tão íntimo...
Nas chamas
sábado, 12 de maio de 2018
Escreveria um texto em tua homenagem
mesmo que não tivesse nada de ti
mesmo que já não me lembre nada além do rosto
mesmo que eu minta gritando nas entrelinhas
mesmo que eu não grite
mesmo que eu me perca em memórias que queimei
mesmo que nada mais seja o mesmo
mesmo que seja servido sem música
mesmo que eu use palavras repetidas
mesmo que eu perdesse a data por estar trabalhando ou no bar
mesmo que tenhamos na distância nosso tempo
mesmo que de tua boca escorra veneno e da minha só tenha silêncio
mesmo que disso se distorça tudo
mesmo que nos matemos lentamente no que julgávamos mútuo
mesmo que de tua boca materialize-se meu fim
e de tuas mãos verta o leito de ti
e de meus dedos sangre o texto de tua morte
insanidade agora nos combina
quebrar o mundo em todas as partes, nos quebrar até o irreconhecível
o corpo contra a parede e quem somos senão a nossa mera percepção de nós mesmos
torpes palavras sem conteúdo, ditas ao mundo por qualquer, repetidas pelo mundo em quaisquer
perdida no tempo, entremeada de subjetividade, totalmente aquém do que realmente deveria nos definir
não nos envergonhamos da indecência de nossa representação
quem somos senão perdidos de nós mesmos
quem buscamos senão a si e o corpo do outro, o que vier acompanhado é brinde ou punição
não me fale de sagrado em coisas assim.
não faz sentido derramar emoções no teclado se nos manteremos nessa distância que não se machuca e não se sente.
o risco de queimar é menor que o prazer do calor, não fujas de tudo que anseias
corra, corra como todas minhas mentes
corra como tudo corre de mim
serei a destruição, a mão pesada que desce sobre ti
serei o medo e a indecisão de todos vocês, e de ti o furacão de lágrimas e fúria apaixonada de teus pesadelos
mesmo que não tivesse nada de ti
mesmo que já não me lembre nada além do rosto
mesmo que eu minta gritando nas entrelinhas
mesmo que eu não grite
mesmo que eu me perca em memórias que queimei
mesmo que nada mais seja o mesmo
mesmo que seja servido sem música
mesmo que eu use palavras repetidas
mesmo que eu perdesse a data por estar trabalhando ou no bar
mesmo que tenhamos na distância nosso tempo
mesmo que de tua boca escorra veneno e da minha só tenha silêncio
mesmo que disso se distorça tudo
mesmo que nos matemos lentamente no que julgávamos mútuo
mesmo que de tua boca materialize-se meu fim
e de tuas mãos verta o leito de ti
e de meus dedos sangre o texto de tua morte
insanidade agora nos combina
quebrar o mundo em todas as partes, nos quebrar até o irreconhecível
o corpo contra a parede e quem somos senão a nossa mera percepção de nós mesmos
torpes palavras sem conteúdo, ditas ao mundo por qualquer, repetidas pelo mundo em quaisquer
perdida no tempo, entremeada de subjetividade, totalmente aquém do que realmente deveria nos definir
não nos envergonhamos da indecência de nossa representação
quem somos senão perdidos de nós mesmos
quem buscamos senão a si e o corpo do outro, o que vier acompanhado é brinde ou punição
não me fale de sagrado em coisas assim.
não faz sentido derramar emoções no teclado se nos manteremos nessa distância que não se machuca e não se sente.
o risco de queimar é menor que o prazer do calor, não fujas de tudo que anseias
corra, corra como todas minhas mentes
corra como tudo corre de mim
serei a destruição, a mão pesada que desce sobre ti
serei o medo e a indecisão de todos vocês, e de ti o furacão de lágrimas e fúria apaixonada de teus pesadelos
quarta-feira, 25 de abril de 2018
Os olhos de peixe morto, dirias. Não estou aqui, nem interessado. Sabes muito bem do fogo de meus olhos. E se não os vê agora... Bem, se perdes o olhar de tua perdição, te bendigo em lábios macios com palavras doces com o adeus que não quis dizer. Talvez fosse mais estético se mais dramático o fosse. Talvez saibas mais que eu que fico tudo que posso e, se vou, não volto. Talvez tenha sido apenas um dia ruim para nos encontrarmos. Hoje eu trocaria tudo pela força em palavras de fazer chorar a todos. E trocaria todas as lágrimas vertidas e todas as respirações suspensas e toda minha escrita pela chance de atear fogo ao mundo. E trocaria o mundo em chamas por um pouco de paz. Talvez não.
A gaita me chama para o mundo no blues do ambiente. Estou perdido em pensamentos novamente. Não me recordo de ter entrado nesse bar, pedido essa cerveja e, confesso, não reconheço quem está na minha frente. Pedir licença e pagar uma parte da conta deve ser o suficiente. Outro dia parei numa livraria, ninguém me parou para ser solícito. Penso se estou emanando antipatia ou caos. Existem lugares na mente que, como nas cidades, uma vez lá não há retorno.
Por que não jogo essa garrafa contra a parede e me conforto no barulho do estilhaçar? Por que insisto em me arremessar em grades que crio? Minha cabeça treme com olhos vacilantes esmagada em paredes arenosas. Preso numa sala que se fecha, as palavras sufocam me afogando, arranhar o caixão depois de enterrado, minha mente está ilhada em partes irracionais, perco as noções do pensar, só há dor.
Tudo se mistura. Como um quadro derretendo depois de anos feito. Como tudo que observo, perdendo suas bordas e definições, se entrelaçando em coisas sem sentido. Não vejo porta nesse quarto só de paredes. Não há sentido em portas se tudo é uma gaiola. Não vejo saída, nem como expressar completamente essa sensação.
me perdi numa dessas de pensar no tempo
Estou preso. Esse é meu presente, maldito e único. O passado escorre por minhas mãos como areia, consigo segurar algo mas tudo mais me foge, se apaga de minha mente sem piedade. O futuro foi estilhaçado, e um futuro não se faz do nada. Cravo unhas e dentes na sanidade de minha carne.
coisas antigas tão enterradas que não consigo entender como as estou pensando, ou vendo, ou sentindo. coincidências demais, meu cérebro liga coisas demais que não deveriam nem ser pensadas
de que vale o passar dos anos se vem tudo assim? de que vale o passar do tempo se a ferrugem, o estrago, fazem acalentar o natimorto de teus sonhos?
O tempo embalsama o passado corroendo o presente.
como questionar o que não existe? como arguir assim a si sobre sanidade?
como escrever o desespero?
estou preocupado,não tenho mais a sensação de entrar e sair de um estado de loucura
Não me permito o arrependimento, esqueço de me desculpar, foi mal estrada percorrida, um agradecimento oco para as pessoas-combustível.
no mais, se é uma viagem só de ida, que seja uma viagem bonita
A gaita me chama para o mundo no blues do ambiente. Estou perdido em pensamentos novamente. Não me recordo de ter entrado nesse bar, pedido essa cerveja e, confesso, não reconheço quem está na minha frente. Pedir licença e pagar uma parte da conta deve ser o suficiente. Outro dia parei numa livraria, ninguém me parou para ser solícito. Penso se estou emanando antipatia ou caos. Existem lugares na mente que, como nas cidades, uma vez lá não há retorno.
Por que não jogo essa garrafa contra a parede e me conforto no barulho do estilhaçar? Por que insisto em me arremessar em grades que crio? Minha cabeça treme com olhos vacilantes esmagada em paredes arenosas. Preso numa sala que se fecha, as palavras sufocam me afogando, arranhar o caixão depois de enterrado, minha mente está ilhada em partes irracionais, perco as noções do pensar, só há dor.
Tudo se mistura. Como um quadro derretendo depois de anos feito. Como tudo que observo, perdendo suas bordas e definições, se entrelaçando em coisas sem sentido. Não vejo porta nesse quarto só de paredes. Não há sentido em portas se tudo é uma gaiola. Não vejo saída, nem como expressar completamente essa sensação.
me perdi numa dessas de pensar no tempo
Estou preso. Esse é meu presente, maldito e único. O passado escorre por minhas mãos como areia, consigo segurar algo mas tudo mais me foge, se apaga de minha mente sem piedade. O futuro foi estilhaçado, e um futuro não se faz do nada. Cravo unhas e dentes na sanidade de minha carne.
coisas antigas tão enterradas que não consigo entender como as estou pensando, ou vendo, ou sentindo. coincidências demais, meu cérebro liga coisas demais que não deveriam nem ser pensadas
de que vale o passar dos anos se vem tudo assim? de que vale o passar do tempo se a ferrugem, o estrago, fazem acalentar o natimorto de teus sonhos?
O tempo embalsama o passado corroendo o presente.
me jogo contra teu corpo em desejo
me entrelaço com a parede em desespero
colapsando em si, minhas mãos que não tremem de medo, estremecem de antecipação, estou fazendo algo errado, vivendo coisas ao reverso, aproveitando coisas que perdi e saboreando a loucura, tudo que foi breve por não ser leve e tudo que se reduziu a pó por não serme entrelaço com a parede em desespero
como questionar o que não existe? como arguir assim a si sobre sanidade?
como escrever o desespero?
a conexão das palavras é vã - a pontuação, fútil
o caminho para a inexistência é estranho, ser mortal é estranho, correr não faz sentido, pedir socorro não faz sentido, não há aurora de algo novo não há crepúsculo em nosso tempo se tudo já decaiu um corpo podre já está podre, um esqueleto já acabou o fim não tem introdução e se chegou agora, sinto muito. Também me dói.
Não me permito o arrependimento, esqueço de me desculpar, foi mal estrada percorrida, um agradecimento oco para as pessoas-combustível.
no mais, se é uma viagem só de ida, que seja uma viagem bonita
domingo, 15 de abril de 2018
O que vê no espelho? Vejo a mortalidade acima de tudo. A idade ainda não me pesa no rosto mas meus olhos não mentem. Sou meu próprio memento, meu próprio tormento. Não há fuga.
Essa luz amarela não é nada. Essa luz amarela nessa árvore cansada não é nada. Essa luz amarela nessa árvore cansada nessa rua de pedra não é nada. Tudo isso está depois dos meus olhos. As coisas me doem. A loja que se fechou. A obra da rua que acabará. As placas de trânsito empoeiradas. O balcão do bar. A mesa de madeira da padaria. Tudo é dor e não entendo. Essa casa velha que esfarela, esse prédio novo que quase brilha. A sombra das folhas nas grades de aço. Todos esses lugares que passei e as memórias que tenho. Todos esses lugares que nunca passei e as memórias que não tenho. Estou preso em tudo e desperdiçado em mim.
Esse azul que corre anoitecendo na cidade de ouro escuro.
Os raios que rasgam os céus são os que costuram meu peito...
Rasgam de azul e cinza a escuridão da noite. Não consigo conter o sorriso, o texto escrevo de tato para não tirar os olhos dos céus.
Mais fugaz que chama, mais pesado que terra. Se fossem me nomear, trovão antes de fogo.Por favor. Mais feroz que a vida. Mais furioso que eu. Ando no ritmo de minhas pernas, queria muito parar e contemplar mas hoje não há tempo. Não aperto o passo, só um tolo o faz. Disciplina ganha de fúria em qualquer dia mas perde a cada respiração em qualquer segundo.
Um lampejo de paixão, ilusões de vida.
Não sei o que em mim anseia a tempestade. Apenas caminho ao seu encontro. Tudo isso é bonito em palavras e desesperador de viver.
Mas isso foi outro dia. Um dia belo e passado de loucura. Estou sem nome e não sou chamado. Apenas vou e faço, sem vontade, sem estímulo, sem paixão, apenas fúria. Não há cama que estanque meu cansaço. Estou confuso e sem acordo, perdedor em meus próprios termos. Sumirei no meu abismo.
O tempo escoa em tons escarlates de meu braço como areia que escorre de uma ampulheta quebrada. Como lágrimas por um homem quebrado.
Essa luz amarela não é nada. Essa luz amarela nessa árvore cansada não é nada. Essa luz amarela nessa árvore cansada nessa rua de pedra não é nada. Tudo isso está depois dos meus olhos. As coisas me doem. A loja que se fechou. A obra da rua que acabará. As placas de trânsito empoeiradas. O balcão do bar. A mesa de madeira da padaria. Tudo é dor e não entendo. Essa casa velha que esfarela, esse prédio novo que quase brilha. A sombra das folhas nas grades de aço. Todos esses lugares que passei e as memórias que tenho. Todos esses lugares que nunca passei e as memórias que não tenho. Estou preso em tudo e desperdiçado em mim.
Esse azul que corre anoitecendo na cidade de ouro escuro.
Os raios que rasgam os céus são os que costuram meu peito...
Rasgam de azul e cinza a escuridão da noite. Não consigo conter o sorriso, o texto escrevo de tato para não tirar os olhos dos céus.
Mais fugaz que chama, mais pesado que terra. Se fossem me nomear, trovão antes de fogo.
Um lampejo de paixão, ilusões de vida.
Não sei o que em mim anseia a tempestade. Apenas caminho ao seu encontro. Tudo isso é bonito em palavras e desesperador de viver.
Mas isso foi outro dia. Um dia belo e passado de loucura. Estou sem nome e não sou chamado. Apenas vou e faço, sem vontade, sem estímulo, sem paixão, apenas fúria. Não há cama que estanque meu cansaço. Estou confuso e sem acordo, perdedor em meus próprios termos. Sumirei no meu abismo.
O tempo escoa em tons escarlates de meu braço como areia que escorre de uma ampulheta quebrada. Como lágrimas por um homem quebrado.
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