terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Fragmentos de memória em pequenos pedaços de papéis.
Virei assim
O que não cabe em minha cabeça escorre em palavras sobre folhas
Tornei-me um pedaço do que sou, sem grandes memórias, desfeitos os sonhos em poeira
Sou apenas o que sou agora, pequeno no que me recordo, pequeno recorte de mim
Não sei de sorrisos ou tristezas, trago a expressão rígida pois não há nada a se mostrar.
Olho tudo com curiosidade contida, me pergunto sobre tudo, investigo quase nada.
A poeira em tuas mãos, sou o suor que evapora.
Os etéreos desejos quando te olho, os eternos desejos quando te olho, os tenros desejos quando te olho.

Os livros outrora alimentos de meu ser, agora são pedras empilhadas numa coluna alta demais, só servem desbalancear-me, desmorono na vergonha de uma taça cheia demais.
A sedução do estático. A segurança do limite. Meu corpo vibra para quebrar essas paredes dos livros. Somente palavras por baixo de suas capas, o que há para temer?
Antes o mundo nas costas, pequeno Atlas.

Minha fome do mundo se esvai nesse cansaço inumano. Se tudo meu é mortal, por que essa exaustão suprema?
As nuvens se arrastam pelo céu. Arrasto-me pelo chão
Não vejo sentido em correr. Meu peito me pede que eu corra, corria até cair quando era completo, correria até cair em completo desespero.
Uma sombra, um fantasma, sem os sonhos do passado, sem as lembranças do futuro.

A tudo queimei, sou as cinzas do meu próprio mundo.
Sou o resto da minha combustão.
Carvão da minha floresta.
O céu rasgado pelo vento. A água cortada pelas pedras.
diminutas minutas de realidade se esvaecendo na brisa
As cinzas caem pelo céu como caem as lembranças de mim.
Nevam zombeteiras e esfarelam ao toque, refletindo a efemeridade das coisas.
Revelando a intangibilidade de tudo já visto por meus olhos.
Pintam meu corpo num tom que não se lava.
Sou minha forja, ardendo nas chamas necessárias.
Esquentar esse aço que me formei
Ver amolecer as extremidades expondo as entranhas enrijecidas
Deformá-las com o martelo até não ser mais o que sou

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Queria uma palavra que significasse estar quebrado
estar quebrado além de reparo, estar quebrado além de qualquer reparo
Talvez derivasse do meu nome
que descrevesse os farelos a que se decompõem todas as partes do meu ser
escorrendo como a areia em ampulheta

o corpo refletindo as rachaduras da mente
meus joelhos falham como falha minha intrepidez
que encaixa bem com a trepidação de minhas mãos
e a estupidez de minhas ações
meus gritos silenciados por mim
minhas dores feitas por mim

o lento despedaçar
como folhas que esperam cair
e esperam sua vez e esperam o vento

fugindo das horas
melhor ficar distante de todos os relógios
a morte encapsulada em vidro e ponteiros

atos de fúria desmedida
contra um corpo que não se defende
acho que o nome crueldade vem daí

preso nessa carne que não esquenta
ferve mas não esquenta
arde mas não esquenta
queima e se marca
corta e se regenera pela metade

se eu jogar todas as palavras de destruição que conheço numa frase,
conseguiria dizer tudo que tenho no peito?
claro que não
as palavras não trariam na pele que lê o frenesi que percorre a minha
não entregariam em mãos o tremor que sinto nas minhas
não escorreriam pelo corpo como medo se faz segundo suor no meu

os olhos em ruptura da mente, não vejo o que está defronte
preso em um tempo qualquer passado ou irreal futuro
cristalizado em vidraças quebradas
pequenas janelas despedaçadas
refletem a miríade de cores do mundo
capturam num reflexo tosco como se a tudo quisessem tocar
um desenho estranho que é tomado pelo espelho
um rosto bizarro que é a imagem do desespero

domingo, 15 de dezembro de 2019

Não sei se me pesa a carga que deveria mas olhar para o ano só me traz que afastei-me. Perdoem-me os pássaros nas árvores, as árvores no chão, as pessoas nas casas e nas ruas. Fechei o coração.

Sinto tudo. O sol refletindo na água, as folhas ao vento, as sombras que dançam, as nuvens que correm, até o que toca meu corpo. Um corpo colado ao meu. Alguém escuta meu peito, espero que diga coisas como a brisa do amanhecer ou o frescor que anoitece. Não sei qual passo ele vai desmarcar e tropeçar. As amarras prendem minha boca por dentro.

Sinto muito. De peito fechado atropelo tudo. Tudo é precioso mas nem os respiro. Ando passo após passo. Sou uma máquina com dor.

Desculpem-me as coisas alegres e - talvez por isso - distantes, falemos as coisas tristes. Dancemos as coisas estáticas. Enganemo-nos ao redor dessa fogueira. Esse brilho fugaz que corre para a escuridão de meus olhos. Nada ilumina. Apenas se esvai.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Morderia minha mão inteira, não me permitiria divertir
O que aconteceu nesse meio do caminho do que chamamos vida?
Era já há muito dominado pela fúria, uma constante em todo meu tempo. Mas não ter nada além disso é algo novo em que me peguei no meio, e me peguei não gostando.
É como queimar o tempo todo.
Qual o valor do fogo quando se está o tempo todo em chamas?
Chegarei onde quero, eu e minhas cinzas, nada valerá a pena assim.

Os cabelos de ilusão, a barba de tristeza.
Por fazer, a fazer, aparada cresce a barba de fúria
deformando meu rosto
Toda essa fúria e a morte interna
A morte que vomito, escarrar é solta-la ao mundo
Oco, a cotovelada no rosto faz um barulho oco quando se arrebenta contra meu nariz

Minha cabeça já não me roda mais
Tenho os pés firmes, as pernas fortes, quase tudo de pedra
quase não mexo, quase me divirto, quase não danço
comovo-me mas quase não aparento,
Em que momento me tornei essa crosta de pedra com fogo dentro?

Apagarei? Romperei? Ou me quebrarei de uma forma estranha e amena?
Cresça a árvore em mim, com raízes em chama e folhas de rocha.
O tronco firme e os galhos flexíveis.
Planta em erupção na erosão do meu ser.
Madeira vermelha petrificada.
Lume em lenha viva.
A necessidade de renascer, torto a qualquer preço.
A dualidade de querer ver tudo florescer e queimar.
Querer se acabar em um instante e perdurar a ver findar lentamente as coisas.
O desespero de nunca parar de andar.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Desperdiçados em ti, esses cigarros acumulados em teus lábios, seus restos em teus dentes, nas calçadas e nos pulmões.
Por que distanciamo-nos as bocas e aproximamos de nós os vícios?
Preferia ouvir teus gritos que nunca ouvi a esse silêncio.
Um tapa, uma explosão, a indiferença traz o desespero. É a morte de todas as coisas.
Trouxemos nossos abismos internos para o meio de nós. Nem um metro de distância posto de uma forma intransponível.
Um silêncio transparente como vidro, forte como vidro. Tragar parece mais fácil que falar.
A cerveja, não importa quão amarga, não consegue ocultar o amargor já presente na boca - talvez alivie algo gelada nos breves segundos que desce a garganta - deixado pelas incontáveis coisas não ditas quase esquecidas apodrecidas em nossas línguas.
A música continua, a vontade de dançar se esvai.
Os olhos meio ocos, voltados para dentro, voltados para trás.
Os sorrisos presos nos cantos das bocas. Um respirar mais pesado pelo nariz é tudo que entregamos.
Evitamos mexer demais para não criar assunto.
A chuva não nós faz mover. Seu cair suave e descompassado em nossos rostos é nossa maior semelhança agora.
Hoje não há vento. O ar estático seria sufocante não fosse gélido.
Talvez a mão apoie a cabeça por que ela pesa.
Um de nós suspirará primeiro. Um de nós levantará primeiro.
A música acaba, precisamos retornar às nossas casas.
Não tarda, a noite finda com o sol a nascer.
Não tarde, feneceremos sem de novo nos amanhecer.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Queria dividir esse céu azul e te dar metade
Dividir tua solidão ao meio e comer metade

Partir teus medos ao meio e queimá-los inteiros
Partilhar contigo meus sonhos partidos

Sorrir a outra metade dos teus sorrisos
Ser metade de teu espelho

Metade dos teus beijos devolver à tua boca
Reaver metade dos meus de teu corpo

Andar por metade dessas ruas que não me permito
Perdermo-nos pela outra metade

Entrelaçar metade da minha perna na tua
Ocupar metade de tua cama

Afundar em teus olhos de mar e esquecer a metade da areia que cai
Sorrir e sonhar o sono leve meio a meio

Deitar-te no meu peito complemento do teu rosto
E antes de distorcer tudo pela má e amarga metade

Parar este texto pela metade

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Não há memórias limpas dentro deste peito sujo
em lama, sangue e cinzas

tantas memórias espalhadas, empilhadas em poeira
intocadas pelo tempo
intocáveis pela dor

O cão uiva pra lua e a lua não uiva de volta
A lua cheia queima a minha pele, ando a esmo porque preciso andar
As ruínas em minha mente que não se reconstroem de volta
Nem em esforço, nem em fúria
Os destroços estão lá e pronto.
A embriaguez é muito feia. Não resta nada senão lançar-me na loucura
que é um grande rio gélido

A tortura de ser torto a andar torto em passos tortos por essas ruas tortas com suas casas tortas

todos os disfarces cedem frente às necessidades primitivas
a insanidade se vê forçada à lógica, o desespero arrasta para a insensatez
uma brincadeira de equilíbrio que só acaba quando se cai

o acúmulo das páginas em branco de todas as palavras sufocadas antes da boca ou dos dedos
tantas memórias espelhadas nesses meus olhos presos em ampulheta
não vejo mais as coisas vivas, tudo que observo me revela seu fenecer
desmanchando-se em cores de areia e tonalidades de melancolia