Desperdiçados em ti, esses cigarros acumulados em teus lábios, seus restos em teus dentes, nas calçadas e nos pulmões.
Por que distanciamo-nos as bocas e aproximamos de nós os vícios?
Preferia ouvir teus gritos que nunca ouvi a esse silêncio.
Um tapa, uma explosão, a indiferença traz o desespero. É a morte de todas as coisas.
Trouxemos nossos abismos internos para o meio de nós. Nem um metro de distância posto de uma forma intransponível.
Um silêncio transparente como vidro, forte como vidro. Tragar parece mais fácil que falar.
A cerveja, não importa quão amarga, não consegue ocultar o amargor já presente na boca - talvez alivie algo gelada nos breves segundos que desce a garganta - deixado pelas incontáveis coisas não ditas quase esquecidas apodrecidas em nossas línguas.
A música continua, a vontade de dançar se esvai.
Os olhos meio ocos, voltados para dentro, voltados para trás.
Os sorrisos presos nos cantos das bocas. Um respirar mais pesado pelo nariz é tudo que entregamos.
Evitamos mexer demais para não criar assunto.
A chuva não nós faz mover. Seu cair suave e descompassado em nossos rostos é nossa maior semelhança agora.
Hoje não há vento. O ar estático seria sufocante não fosse gélido.
Talvez a mão apoie a cabeça por que ela pesa.
Um de nós suspirará primeiro. Um de nós levantará primeiro.
A música acaba, precisamos retornar às nossas casas.
Não tarda, a noite finda com o sol a nascer.
Não tarde, feneceremos sem de novo nos amanhecer.
domingo, 1 de dezembro de 2019
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Queria dividir esse céu azul e te dar metade
Dividir tua solidão ao meio e comer metade
Partir teus medos ao meio e queimá-los inteiros
Partilhar contigo meus sonhos partidos
Sorrir a outra metade dos teus sorrisos
Ser metade de teu espelho
Metade dos teus beijos devolver à tua boca
Reaver metade dos meus de teu corpo
Andar por metade dessas ruas que não me permito
Perdermo-nos pela outra metade
Entrelaçar metade da minha perna na tua
Ocupar metade de tua cama
Afundar em teus olhos de mar e esquecer a metade da areia que cai
Sorrir e sonhar o sono leve meio a meio
Deitar-te no meu peito complemento do teu rosto
E antes de distorcer tudo pela má e amarga metade
Parar este texto pela metade
Dividir tua solidão ao meio e comer metade
Partir teus medos ao meio e queimá-los inteiros
Partilhar contigo meus sonhos partidos
Sorrir a outra metade dos teus sorrisos
Ser metade de teu espelho
Metade dos teus beijos devolver à tua boca
Reaver metade dos meus de teu corpo
Andar por metade dessas ruas que não me permito
Perdermo-nos pela outra metade
Entrelaçar metade da minha perna na tua
Ocupar metade de tua cama
Afundar em teus olhos de mar e esquecer a metade da areia que cai
Sorrir e sonhar o sono leve meio a meio
Deitar-te no meu peito complemento do teu rosto
E antes de distorcer tudo pela má e amarga metade
Parar este texto pela metade
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Não há memórias limpas dentro deste peito sujo
em lama, sangue e cinzas
tantas memórias espalhadas, empilhadas em poeira
intocadas pelo tempo
intocáveis pela dor
O cão uiva pra lua e a lua não uiva de volta
A lua cheia queima a minha pele, ando a esmo porque preciso andar
As ruínas em minha mente que não se reconstroem de volta
Nem em esforço, nem em fúria
Os destroços estão lá e pronto.
A embriaguez é muito feia. Não resta nada senão lançar-me na loucura
que é um grande rio gélido
A tortura de ser torto a andar torto em passos tortos por essas ruas tortas com suas casas tortas
todos os disfarces cedem frente às necessidades primitivas
a insanidade se vê forçada à lógica, o desespero arrasta para a insensatez
uma brincadeira de equilíbrio que só acaba quando se cai
o acúmulo das páginas em branco de todas as palavras sufocadas antes da boca ou dos dedos
tantas memórias espelhadas nesses meus olhos presos em ampulheta
não vejo mais as coisas vivas, tudo que observo me revela seu fenecer
desmanchando-se em cores de areia e tonalidades de melancolia
em lama, sangue e cinzas
tantas memórias espalhadas, empilhadas em poeira
intocadas pelo tempo
intocáveis pela dor
O cão uiva pra lua e a lua não uiva de volta
A lua cheia queima a minha pele, ando a esmo porque preciso andar
As ruínas em minha mente que não se reconstroem de volta
Nem em esforço, nem em fúria
Os destroços estão lá e pronto.
A embriaguez é muito feia. Não resta nada senão lançar-me na loucura
que é um grande rio gélido
A tortura de ser torto a andar torto em passos tortos por essas ruas tortas com suas casas tortas
todos os disfarces cedem frente às necessidades primitivas
a insanidade se vê forçada à lógica, o desespero arrasta para a insensatez
uma brincadeira de equilíbrio que só acaba quando se cai
o acúmulo das páginas em branco de todas as palavras sufocadas antes da boca ou dos dedos
tantas memórias espelhadas nesses meus olhos presos em ampulheta
não vejo mais as coisas vivas, tudo que observo me revela seu fenecer
desmanchando-se em cores de areia e tonalidades de melancolia
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Meu coração violento contra a jaula do meu peito
mas isso não é novidade
A liberdade é somente a troca por uma prisão maior
A vida é somente a ilusão de valer a pena
Já devo ter me repetido, no dançar das palavras
no emaranhado de ideias, na sensação de oceanos
forçando satisfação num abuso próprio
em pensamentos virulentos
Envileci, temo.
Antes de velho, sou vilão.
Minha raiva do mundo condensada numa fúria de coleira
Isso não deveria ser possível de tão absurdo
Nascerá a ira da gentileza, uma explosão colérica do ser contra si
Que o mundo trema como meus punhos cerrados, nada tremerá
Não tenho como me despir além do nu
meus dedos que escorrem pelo meu corpo
às vezes desejam que minha pele se solte
meus dentes não cravam com força em minha carne
não quero ter que regenerar tanto
perversão em forma de ideias
um sorriso sombrio que surge dos ossos ao rosto
uma nuvem nefasta projeta sua sombra em minha mente
em arrepio, um frio como espinho, agudo e invasivo
engraçado como já pedi para que não tivessem medo e talvez eu tenha
a água leva o que nocivamente me corrompe
tira de mim a minha própria morte
mesmo que temporariamente
mesmo que só para adormecer e fingir esquecer
mas isso não é novidade
A liberdade é somente a troca por uma prisão maior
A vida é somente a ilusão de valer a pena
Já devo ter me repetido, no dançar das palavras
no emaranhado de ideias, na sensação de oceanos
forçando satisfação num abuso próprio
em pensamentos virulentos
Envileci, temo.
Antes de velho, sou vilão.
Minha raiva do mundo condensada numa fúria de coleira
Isso não deveria ser possível de tão absurdo
Nascerá a ira da gentileza, uma explosão colérica do ser contra si
Que o mundo trema como meus punhos cerrados, nada tremerá
Não tenho como me despir além do nu
meus dedos que escorrem pelo meu corpo
às vezes desejam que minha pele se solte
meus dentes não cravam com força em minha carne
não quero ter que regenerar tanto
perversão em forma de ideias
um sorriso sombrio que surge dos ossos ao rosto
uma nuvem nefasta projeta sua sombra em minha mente
em arrepio, um frio como espinho, agudo e invasivo
engraçado como já pedi para que não tivessem medo e talvez eu tenha
a água leva o que nocivamente me corrompe
tira de mim a minha própria morte
mesmo que temporariamente
mesmo que só para adormecer e fingir esquecer
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
O medo do silêncio é simples.
Ele que escorre feito água por meu corpo, repousa em meus pés em uma poça, onde me verei refletido - querendo ou não, de onde meus olhos me fitarão profundos. Talvez me perca nesse mar castanho mas a triste calmaria dá uma certeza de retorno, de sua inevitabilidade. Não posso viver mergulhado em mim, não há fôlego. Que eu retorne por obrigação, como fim de todo ciclo. Que eu retorne por vontade, como início escolhido de caminhada.
Ele que é uma câmara onde se revela a vã tentativa de capturar na mente a luz dos olhares.
Essa coisa densa quase palpável que pesa todo movimento.
As amarras que crescem em minha boca como ervas que trançam uma árvore sem, a princípio, sufocar
a vontade e talvez o instinto me dizem para fechar os olhos
e o silêncio não me deixa
devo ver, devo sentir, devo absorver todo o silêncio que meus olhos tocam
não são de devorar como frutas saborosas
ou algo qualquer que cede sob a mordida da fome
não posso desviar o olhar como em reflexo ou asco
o toque não ocorre porque espera-se que ele quebre o silêncio
e o silêncio que não quebra com as mãos é o maior medo de todos
é o silêncio que não se curva a murros ou gritos, inquebrável
e essa realização é o próprio desespero, é a própria ascendência na loucura
é o que traz a fúria e o sangue e arranca do poço a escuridão
e não mergulha pois a traz pra si e não afoga pois ensandecido nada teme
e não corre. não se corre do silêncio.
respiro o ar silencioso que anda por onde andam os ventos no corpo
hoje não há uivos nos labirintos, que sem o medo são só caminhos
falaria do silêncio das cadeiras, se fosse uma era a solidão, se fossem duas era o abandono, se fossem mais era uma perda, e não quero que interprete tudo errado dessa maneira
percebo as lacunas na mente, das coisas que não quis ou não aguentei
talvez exista um nível além da tolice em que um tolo permanece tolo por escolha
o silêncio existe além da solidão
Ele que escorre feito água por meu corpo, repousa em meus pés em uma poça, onde me verei refletido - querendo ou não, de onde meus olhos me fitarão profundos. Talvez me perca nesse mar castanho mas a triste calmaria dá uma certeza de retorno, de sua inevitabilidade. Não posso viver mergulhado em mim, não há fôlego. Que eu retorne por obrigação, como fim de todo ciclo. Que eu retorne por vontade, como início escolhido de caminhada.
Ele que é uma câmara onde se revela a vã tentativa de capturar na mente a luz dos olhares.
Essa coisa densa quase palpável que pesa todo movimento.
As amarras que crescem em minha boca como ervas que trançam uma árvore sem, a princípio, sufocar
a vontade e talvez o instinto me dizem para fechar os olhos
e o silêncio não me deixa
devo ver, devo sentir, devo absorver todo o silêncio que meus olhos tocam
não são de devorar como frutas saborosas
ou algo qualquer que cede sob a mordida da fome
não posso desviar o olhar como em reflexo ou asco
o toque não ocorre porque espera-se que ele quebre o silêncio
e o silêncio que não quebra com as mãos é o maior medo de todos
é o silêncio que não se curva a murros ou gritos, inquebrável
e essa realização é o próprio desespero, é a própria ascendência na loucura
é o que traz a fúria e o sangue e arranca do poço a escuridão
e não mergulha pois a traz pra si e não afoga pois ensandecido nada teme
e não corre. não se corre do silêncio.
respiro o ar silencioso que anda por onde andam os ventos no corpo
hoje não há uivos nos labirintos, que sem o medo são só caminhos
falaria do silêncio das cadeiras, se fosse uma era a solidão, se fossem duas era o abandono, se fossem mais era uma perda, e não quero que interprete tudo errado dessa maneira
percebo as lacunas na mente, das coisas que não quis ou não aguentei
talvez exista um nível além da tolice em que um tolo permanece tolo por escolha
o silêncio existe além da solidão
domingo, 23 de junho de 2019
Este é um texto de fúria. Esta é uma vida de fúria.
Se andei até minhas pernas não aguentarem, andarei até escorregar no sangue de meus pés.
Quando cair ao chão me arrastarei puxado por meus braços até asfalto, terra e sangue serem a mesma mistura. Se andarei em vão, que ande sobre meu sangue. Se viverei em vão, que viva em minha fúria.
Arrastaria apoiando meu queixo no asfalto até ele escorregar em sangue
até meu caminho ser todo de sangue
e quando me virar para fitar o céu no seu azul manso ou profundo
que venham os abutres me bicar, os devorarei e me banharei em seu sangue imundo
haverá uma pilha de abutres comendo abutres antes que eu seja a próxima refeição
Se andei até minhas pernas não aguentarem, andarei até escorregar no sangue de meus pés.
Quando cair ao chão me arrastarei puxado por meus braços até asfalto, terra e sangue serem a mesma mistura. Se andarei em vão, que ande sobre meu sangue. Se viverei em vão, que viva em minha fúria.
Arrastaria apoiando meu queixo no asfalto até ele escorregar em sangue
até meu caminho ser todo de sangue
e quando me virar para fitar o céu no seu azul manso ou profundo
que venham os abutres me bicar, os devorarei e me banharei em seu sangue imundo
haverá uma pilha de abutres comendo abutres antes que eu seja a próxima refeição
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Acordei no meio da noite com os braços ao redor do meu pescoço. Queria quebrar o pescoço de alguém mas acordei para descobrir que era o meu próprio. Deixei uma nota mental para procurar depois se uma pessoa é capaz de quebrar o próprio pescoço com as próprias mãos enquanto dorme. Espero não ter aplicado nem metade da força que sonhei. Lembro que acordei já com um estalo. Parece tudo no lugar, não acho que vou morrer assim, ou que já morri.
Trago o celular da mesa para o lado do travesseiro por precaução. Não sei se tenho uma coisa me preocupando mais, ou se é só a tontura com que acordo. Escorrego de volta aos lençóis de sono sem o pescoço quebrado, adormeço rápido e sonho muito. Não houve tempo para o desespero.
Trago o celular da mesa para o lado do travesseiro por precaução. Não sei se tenho uma coisa me preocupando mais, ou se é só a tontura com que acordo. Escorrego de volta aos lençóis de sono sem o pescoço quebrado, adormeço rápido e sonho muito. Não houve tempo para o desespero.
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