sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Meu coração violento contra a jaula do meu peito
mas isso não é novidade
A liberdade é somente a troca por uma prisão maior
A vida é somente a ilusão de valer a pena
Já devo ter me repetido, no dançar das palavras
no emaranhado de ideias, na sensação de oceanos
forçando satisfação num abuso próprio
em pensamentos virulentos

Envileci, temo.
Antes de velho, sou vilão.
Minha raiva do mundo condensada numa fúria de coleira
Isso não deveria ser possível de tão absurdo
Nascerá a ira da gentileza, uma explosão colérica do ser contra si
Que o mundo trema como meus punhos cerrados, nada tremerá

Não tenho como me despir além do nu
meus dedos que escorrem pelo meu corpo
às vezes desejam que minha pele se solte
meus dentes não cravam com força em minha carne
não quero ter que regenerar tanto
perversão em forma de ideias
um sorriso sombrio que surge dos ossos ao rosto
uma nuvem nefasta projeta sua sombra em minha mente
em arrepio, um frio como espinho, agudo e invasivo
engraçado como já pedi para que não tivessem medo e talvez eu tenha
a água leva o que nocivamente me corrompe
tira de mim a minha própria morte
mesmo que temporariamente
mesmo que só para adormecer e fingir esquecer

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O medo do silêncio é simples.
Ele que escorre feito água por meu corpo, repousa em meus pés em uma poça, onde me verei refletido - querendo ou não, de onde meus olhos me fitarão profundos. Talvez me perca nesse mar castanho mas a triste calmaria dá uma certeza de retorno, de sua inevitabilidade. Não posso viver mergulhado em mim, não há fôlego. Que eu retorne por obrigação, como fim de todo ciclo. Que eu retorne por vontade, como início escolhido de caminhada.
Ele que é uma câmara onde se revela a vã tentativa de capturar na mente a luz dos olhares.
Essa coisa densa quase palpável que pesa todo movimento.
As amarras que crescem em minha boca como ervas que trançam uma árvore sem, a princípio, sufocar
a vontade e talvez o instinto me dizem para fechar os olhos
e o silêncio não me deixa
devo ver, devo sentir, devo absorver todo o silêncio que meus olhos tocam
não são de devorar como frutas saborosas
ou algo qualquer que cede sob a mordida da fome
não posso desviar o olhar como em reflexo ou asco
o toque não ocorre porque espera-se que ele quebre o silêncio
e o silêncio que não quebra com as mãos é o maior medo de todos
é o silêncio que não se curva a murros ou gritos, inquebrável
e essa realização é o próprio desespero, é a própria ascendência na loucura
é o que traz a fúria e o sangue e arranca do poço a escuridão
e não mergulha pois a traz pra si e não afoga pois ensandecido nada teme
e não corre. não se corre do silêncio.

respiro o ar silencioso que anda por onde andam os ventos no corpo
hoje não há uivos nos labirintos, que sem o medo são só caminhos
falaria do silêncio das cadeiras, se fosse uma era a solidão, se fossem duas era o abandono, se fossem mais era uma perda, e não quero que interprete tudo errado dessa maneira
percebo as lacunas na mente, das coisas que não quis ou não aguentei
talvez exista um nível além da tolice em que um tolo permanece tolo por escolha
o silêncio existe além da solidão

domingo, 23 de junho de 2019

Este é um texto de fúria. Esta é uma vida de fúria.

Se andei até minhas pernas não aguentarem, andarei até escorregar no sangue de meus pés.
Quando cair ao chão me arrastarei puxado por meus braços até asfalto, terra e sangue serem a mesma mistura. Se andarei em vão, que ande sobre meu sangue. Se viverei em vão, que viva em minha fúria.

Arrastaria apoiando meu queixo no asfalto até ele escorregar em sangue
até meu caminho ser todo de sangue
e quando me virar para fitar o céu no seu azul manso ou profundo
que venham os abutres me bicar, os devorarei e me banharei em seu sangue imundo
haverá uma pilha de abutres comendo abutres antes que eu seja a próxima refeição

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Acordei no meio da noite com os braços ao redor do meu pescoço. Queria quebrar o pescoço de alguém mas acordei para descobrir que era o meu próprio. Deixei uma nota mental para procurar depois se uma pessoa é capaz de quebrar o próprio pescoço com as próprias mãos enquanto dorme. Espero não ter aplicado nem metade da força que sonhei. Lembro que acordei já com um estalo. Parece tudo no lugar, não acho que vou morrer assim, ou que já morri.
Trago o celular da mesa para o lado do travesseiro por precaução. Não sei se tenho uma coisa me preocupando mais, ou se é só a tontura com que acordo. Escorrego de volta aos lençóis de sono sem o pescoço quebrado, adormeço rápido e sonho muito. Não houve tempo para o desespero.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Um homem cansado andando sobre a calçada cansada dessa cidade cansada para uma casa cansada para tomar um banho gelado e dormir uma noite cansada. Acordar em um dia cansado e ir cansado ao trabalho cansado.
Desse mundo surrado e velho, como tirar algo que arranque o cansaço da alma?
Desculpem-me o sol, a lua, as estações, as terras de todas as cores, o vento. Estou cansado.
Meu corpo se move pelas pequenas porções de fúria que sobram em mim.
Caindo lentamente em um silêncio que não é de resistência.

O silêncio que mora nas madrugadas não é nada
É menor que o silêncio das mordidas que o tempo me dá
É menor que o peso dos meus suspiros.
O abismo que se forma ao meu redor... ou eu caminhei até aqui?
É menor que o silêncio das paredes.
Os cães da distância me mordem tão suavemente, não há como pará-los.

O silêncio é o que me resta, é o que sobra, é o que há.
Desconectando-me da realidade, não sinto vontade de voltar.
Não sinto. Já foi. Já passou.
Os sabores são dos jovens, o amargo dos remorsos.

A faca cortando minha carne ou cortando um queijo é só uma questão de posicionamento físico, não estou sabendo distinguir mais que isso. Estou me tornando as pessoas robóticas que odiava, mortas por dentro - ou, como agora vejo, desconectadas da realidade. Nada parece fazer diferença porque nada faz. Talvez uma dose de adrenalina embalada na forma de um atropelamento faça algo faiscar e, por sorte, acender; ou quebre de fato o que já é quebrado.

Como não desejar o caos se é a única coisa que ainda me move. Como não desejar o mundo em chamas para esquentar o peito e queimar a pele.
Morramos antes que envileçamos.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Repasso a fala em minha mente. A tosse interrompe meus pensamentos. Seca e áspera, impossível não me levar para tantas outras memórias. O arco imaginário em volta de minha cabeça volta a apertar, a dor e a pressão na testa chegam a deixar tonto... Que nostalgia. Nos anos que eu era movido a fúria em meio a tudo, onde foi que perdi minha loucura? Rir o desespero, sorrir bem amargo, as unhas cortadas para não cravar em nada, mas já nem tentaria... Dessa vez sei que o mundo está parado e só eu que estou girando. Não faz muita diferença no fim, ainda quero vomitar. Ainda preciso vomitar. Todas essas coisas que engoli iludindo-me alimentar rastejam agora querendo sair. A tosse força o corpo a arquear. O mesmo meio sorriso, amargo e cansado. Quero rir. Não quero rir. A mão vai à boca mas já estou rindo. A mão dança no rosto passando pelo nariz, ainda não vou gargalhar. Os olhos ardem, estou rindo, a mão sobe à testa, não vou gargalhar. Sento no chão. Acho que estou sozinho. Estou sozinho? Posso enlouquecer? A ilusão de abrir uma jaula e pensar em entrar quando já se está trancafiado. Como cheguei até aqui? Sei exatamente e não faço a mínima ideia. Se for lembrar de tudo, não terei forças para sair daqui. O esquecimento sendo a única vingança vã. E o único perdão tolo. Ou o contrário. Talvez eu não me canse de fazer tolices. Mas já estou cansado de todo o resto. Os olhos e o peito disputam peso com o mundo. Deito-me. Estou gargalhando no chão. E a tosse vem me jogar de volta à realidade violentamente. Estou deitado. Acho que está escuro, meus olhos estão abertos e não vejo nada. Acho que respiro. Repasso a fala em minha mente. A tosse interrompe meus pensamentos.

domingo, 12 de maio de 2019

Todas e todas essas voltas para terminarmos sentados aqui. Na mesa, eu, um prato, e minha mente. Minha mente me morde pelas bordas. A insanidade mastiga pequenos pedaços e os devolve sem engolir. Pego-me em pé fitando o arroz que queima na panela. Não me importo tanto, se estiver comestível, comerei. O leve gosto de queimado acaba sendo uma diversão. Um desviar de atenção dessas folhas com seu verde vibrante sob o sol balançando ao ritmo do vento. O problema da vida é tudo ser tão bonito e tão cruel. Um ciclo é cruel em si.

estou com uma sensação estranha porque me tornei um estranho a mim
neguei-me tanto e por tanto tempo...
tenho as pilhas de afazeres acumuladas nos armários,
se não era quebrado pelo mundo, quebrei-me em minhas próprias mãos para conseguir existir

se confiei em mim que descobriria depois tudo novamente,
despedacei-me em papéis, anotações, rabiscos,
sinto em me decepcionar, não é isso que está acontecendo

o eco de glórias passadas que se encerra
os uivos de fúria sumindo sob a chuva
o silêncio que cresceu em meu ventre é absurdo
engoliu meu próprio abismo, absorveu minha escuridão
sou o próximo

Primeiro a loucura, depois a fúria e então o silêncio.
Não sei se caminho para algum silêncio ou se deveria...
Mas sinto surgindo em minha volta
emanando de meu ser, escorrendo pelas paredes, ascendendo pelas frestas do chão
Não temo o silêncio como a mata não teme a foice, como a caça não teme a lança.
Meus olhos em silêncio concentram-se na tarefa em minha frente. Os lábios grudados quase selados de tanto tempo sem se mover. Os movimentos das narinas já se desfizeram na naturalidade. As mãos trabalham. A cadência do martelo é tudo que existe no ar. Seu som é pequeno frente ao silêncio e, quase em vergonha, rapidamente se esvai.
Se a loucura dança e a fúria queima, o silêncio nada faz. E se abriga nessas porções de nada que percorrem as ruas como uma brisa que se transporta na sombra do vento.
Ainda não entendo. Como não entendia a primeira loucura ou a primeira fúria - e únicas, é claro.
Meu eu, uma mente, no prato, servidos a ninguém.
Não entendo como o sol não espanta o silêncio como espantava a loucura da alvorada.
Não entendo como a água gelada não dissipa o silêncio como dissipava a fúria em chamas.
Não entendo como o silêncio mora nas pequenas mordidas que dou em minha comida, nos passos calculados que dou sem pensar, na mão que levo à porta, nas pálpebras que pesam sobre meus olhos.