Caneta e papel é tão íntimo que repousa solidão, é o que tenho. O trem balança, quase risco a folha por inteiro escrevendo sobre o escrever. Escrevendo sobre o pensar em escrever, a angústia que isso me traz. Minha mente um campo liso coberto por algo que parece neve, local de guerras passadas com explosão de furor e sangue, por vezes literal demais se levando além da literatura. Hoje mal sopra o vento onde houvera furacão. Preocupa-me. É essa a lenta morte? O começo do esperar? Resignar-se? Como em tudo em minha vida, sobrevivo em Fúria. Não tenho calma, furioso comigo me contenho, faço da fúria minha paciência. Não tenho tenacidade, furioso com a mera ideia de desistir, faço dos meus punhos cerrados minha obstinação. Uma imagem borrada e furiosa que substitui e ressalta a falta. Estou cansado além do limite. Já cansado na alma. Em fúria não aceito meu cansaço. Minha vida foi se moldando, da inconsciência para a curiosidade para o puro não entendimento para o desespero para a loucura para a fúria. Estou aqui agora, afastando de minha loucura a quem não sei mais acompanhar, meus pés não são mais leves e saltitantes em brincadeiras mentais. Meus pés são firmes na lama, a todo momento conscientes do peso do meu corpo. E estou pesado. Tudo é uma batalha. Viver é uma guerra. Há sentido nisso? Busco o pão na mercearia em fúria. Viro o leito no copo em fúria. Preparo meu almoço em fúria para devorá-lo em fúria. As bordas das coisas se esvaem. Seus conteúdos se apagam. Minhas cicatrizes de fúria no tempo de loucura perdem o significado.
domingo, 7 de janeiro de 2018
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Deixo as questões existenciais para o final de semana. Questiono se estou paranoico... Por que o valor das compras do supermercado deu o mesmo número de litros que abasteci enchendo o tanque do carro? Chego em casa do trabalho, é a hora certa para dormir. Sento na cadeira, olho para a parede, é madrugada, não era. O mundo comeu 5 horas ou mais da minha noite e eu nem vi. Relaxei um pouco a mão e caí por completo, é por isso que estou aqui?
Não consigo pensar direito. Não me toco na cama. Não sei quase mais nada. Minha cabeça gira de pernas bambas sem sair do lugar, sem estabilizar e sem cair. A quase loucura é pior, muito pior. Coito interrompido. Biscoito esfarelado. Problemas que são quase de verdade.
É o calor? Deve ser esse calor. Estou em silêncio mas não estou calmo. Meus movimentos entorpecidos, quero correr. Estou sofrendo sozinho, estou sofrendo de graça. Sem ou compostura me desfaço integralmente. Não estou conseguindo enlouquecer. Socorro.
Não consigo mais me comover com isso que chamo de ironia. Vejo, sofro e fica nisso. Um tapa na cara que não posso parar pra sentir.
Não consigo pensar direito. Não me toco na cama. Não sei quase mais nada. Minha cabeça gira de pernas bambas sem sair do lugar, sem estabilizar e sem cair. A quase loucura é pior, muito pior. Coito interrompido. Biscoito esfarelado. Problemas que são quase de verdade.
É o calor? Deve ser esse calor. Estou em silêncio mas não estou calmo. Meus movimentos entorpecidos, quero correr. Estou sofrendo sozinho, estou sofrendo de graça. Sem ou compostura me desfaço integralmente. Não estou conseguindo enlouquecer. Socorro.
Não consigo mais me comover com isso que chamo de ironia. Vejo, sofro e fica nisso. Um tapa na cara que não posso parar pra sentir.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
Preparei um copo desses de boteco para tomar um vinho chileno. Bem aí notei que não tinha um saca rolha. Já instaurada minha vontade de bebê-lo e de garrafa em punho, não me restava alternativa a não ser usar um alicate para abri-lo. Foi uma luta. Por fim, de garrafa aberta, ousei o primeiro gole direto de sua boca e decidido naquele instante que não havia nada mais justo, guardei o copo no armário.
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Queria escrever aqui sobre loucura, angústia, solidão, brilhar a melancolia sobre a tristeza, relembrar a pulsante ironia mas corri disso tudo. Não sei se é apenas o momento mas o que ferve em mim é raiva. Não esse ódio bobo por coisas que não se entende, não raiva tola por coisas pequenas, é algo nascido há muito, espontâneo mas nutrido por mim desde então. Ira. Enraizado não transcreve o quanto sou. Pela infância, pelo colégio, pela rua, pelo trabalho, a única coisa que me manteve seguindo em frente por todos esses anos foi essa fúria. As pessoas foram as primeiras a me falhar, claro, esperado, sempre o início. Mas minha inteligência me falhou, minha força me falhou, minha tristeza. Todas as emoções, todas as qualidades, todos os defeitos me falharam. Quando minha sanidade me falhou, minha insanidade! Quando a loucura! Justo ela, com quem compartilhei todas os cômodos de minha vida, ah, mas a fúria sempre habitou meu corpo. A loucura por vezes vinha, compartilhava de meu corpo, dançava comigo; por vezes me observava de longe sentada em uma poltrona inexistente fumando seu charuto e tomando seu conhaque. Eu costumava perguntar aos outros o que os motivava a levantar e viver o dia. A minha resposta é a mais simples de todas as que já ouvi. A lua cheia uiva para mim. Queria uivar de volta.
Construí minha força com minha fúria. Fortaleci minha mente com minha fúria. Sobrevivi com minha fúria. Tive amor, felicidade, tristeza, solidão, tudo isso me prendeu, me limitou. Calei as vozes da minha cabeça com fúria, me levantei do chão com fúria, trespassei tudo em fúria; corações e obstáculos.
Todas as minhas cicatrizes são cicatrizes de fúria. Todas as minhas conquistas são conquistas de fúria. Todos os meus dias são dias de fúria.
Construí minha força com minha fúria. Fortaleci minha mente com minha fúria. Sobrevivi com minha fúria. Tive amor, felicidade, tristeza, solidão, tudo isso me prendeu, me limitou. Calei as vozes da minha cabeça com fúria, me levantei do chão com fúria, trespassei tudo em fúria; corações e obstáculos.
Todas as minhas cicatrizes são cicatrizes de fúria. Todas as minhas conquistas são conquistas de fúria. Todos os meus dias são dias de fúria.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
É madrugada. Encontro-me na rua, admirando o céu. Tonalidades de um azul profundo se entrelaçam, em partes pintadas com traços de nuvem e em outras recortes esculpidos com destreza dando espaço para as estrelas brilharem com suavidade. A lua se recolhera hoje deixando que tudo mais ganhe sua parcela de contemplação e suspiros. O silêncio flui junto ao vento, leve e sereno, indicando em seu movimento dançante que estará mais belo a cada segundo, a cada apreciação. As estrelas brilham em igual, respiro o tanto que a noite me pede, não ousaria fazer diferente, seu perfume vindo a mim no farfalhar gentil de pequenas folhas. Acaricia meu rosto com a ponta macia de dedos longos e conhecedores, sorrio de volta. Sentiria o medo crescente das coisas frágeis não estivesse preparado, é claro que o silêncio cresceria como um manto ao meu redor, como um lindo vidro que eu pudesse tocar e que certamente quebrariam; mesmo sabendo disso, não temi de antecipação, não receei por momento algum, não que eu estivesse pronto para bater de peito com a sensação e a dor dos estilhaços de silêncio sendo rasgados, estava apenas ciente disso tudo em uma parte distante da minha mente enquanto me concentrava em observar e absorver aquele momento.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Você acabou de desligar. Estou aqui me retorcendo. Vão correr os primeiro vinte e poucos minutos, depois o tempo se suspende e as horas escorrem mas se acumulam. Horas depois ainda vou olhar nossa última ligação. Às vezes fico acordado, às vezes adormeço sentado. O pescoço torto, o corpo duro; provavelmente vou acordar com sua ligação. O sol nasce sempre, maldição terrena. Ontem existiu mas nem parece. Se os teus gritos se desfazem para não serem lembrados. Por que não tuas juras? Sumindo entre um evaporar e desaparecer como névoa desfeita pelos raios solares.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
São duas horas da tarde. Do quarto fechado, da cortina improvisada, do suspiro apertado, pouca diferença faz. Do desespero velado, do monótono feriado, nada importa. Não importa a gaiola de meu corpo se estou preso nele. Se não saio de mim, se tenho toda essa pele, toda essa pretensão de ser outra coisa. Não me cobro voos loucos, noites de embriaguez ou o calor de uma cama. Quero ser minha loucura, quero licenciar-me do mundo por dias ou semanas. Tem muita coisa viva em minha mente esperando ser digerida ou apodrecer. O tempo é mais louco do que jamais serei. Não sentes na pele toda a pressão do mundo? Não te aferra a carne o desespero das horas? De ser qualquer coisa. De estar noutro lugar. De mover-se, correr, talvez de si, sempre de si. Não estremece teu corpo com o peso de tudo? Manter a sanidade se torna secundário. Como sobreviver até amanhã? Tua mente se rasga entre lembranças e possibilidades, as bordas inexistentes de teu ser fazem forte sua ausência. Expande-se em tudo que pode tocar, efêmeras, as coisas, o pensamento, o tato... O paladar permanece, a fome reina. Já passei uma semana sem minha consciência, nunca passei mais que um dia sem minha fome. O prazer inexistente de cravar os dentes, o sabor percorrer tua boca até tua garganta. Salivar na ideia de ter.
Se te perguntarem hoje, mente que entende.
Se te perguntarem hoje, mente que entende.
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