quarta-feira, 7 de junho de 2017

São anos, terra, ventos, tudo que se pode passar. Mas volta a sensação, talvez reforçada por todo esse tempo latente, talvez revigorada por todo esse ódio acumulado. Pura e simplesmente sinto vontade de queimar o mundo, e descarrego tudo isso em mim. Meus dedos abrem feridas nas pontas de se retorcerem contra a mesa, a parede, o chão. Meus punhos sangram com socos vãos. Minha pele se rasga com arranhados desesperados. Quero cortar, abrir, me virar ao avesso. Ver o que mora em mim e é tão ruim, tão amargo.

Sou feito de ódio e fome. Meu primeiro choro nesse mundo foi de fome. Sinto fome desde que nasci, fome de tudo, só fome. Consumir o mundo, me devorar até sumir. O senhor que todo dia colocava uma bala no cilindro e puxava o gatilho contra a cabeça é o homem que faz mais sentido, o que são os outros então? O que é essa faca que giro sobre a mesa? Estou tão cansado, quero dançar. Começar com um primeiro corte de ódio, a primeira gota de sangue, o frenesi que se segue. A dança louca, simples e íntima da lâmina e do ser. O que faz parar é trazer toda a dor para fora, ou cair no chão e adormecer. Cicatrizes são feitas pra se acumular.

Escrevo em meu corpo segredos da minha sanidade. Não saberei ler depois. Não precisarei ler depois. Minha mente dará outras voltas, outros contornos, não digo que irei parar no mesmo lugar, não saberia dizer. Sou outrem, no mesmo corpo, nos mesmos pecados, novo amargo. Sou o mesmo, nunca mudo, transformo tudo, enterro a mim. Embriagado pela luz tremeluzente do fogo sob o vento, tudo toma calma frente ao delicado furor da chama, fecho os olhos e deixo o cansaço me levar.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Meu peito sangra. Uma sensação que tenho desde novo nas maiores dores. Algo escorre dentro do meu peito minguado, líquido e um pouco viscoso, suponho sangue. É um prelúdio à morte, não demora vou-me sem saber o que vem depois, as batidas do coração ecoando nos ouvidos - descompassadas, perdidas, apertadas. Amanhã quem serei? Choro. Principalmente por saber o que vem depois. A perda de mim, o entorpecimento da mente, o deslize na escuridão e o despertar vazio, não serei o mesmo, estarei morto e enterrado e minha carcaça seguirá com algo em meu lugar. Novamente, sempre fui bom em misturar, nunca em pertencer. Será um ciclo? Mesmo a cada vez estando mais endurecido, a dor só aumenta. O desespero tem novas formas mas se manifesta em meu descontrole. Como não odiar a mim? Como não querer queimar o mundo? Como não cortar meu corpo na tentativa de deixar... A quem engano? Os ferimentos só me servem de lembrete ou entorpecente. Não adianta eu ou qualquer alguém correr agora, não é um caminho sem volta, é apenas uma queda livre. Encolho-me até não mais existir e é o que de fato acontece. Acordo entorpecido, distante de tudo. O tremor se foi, as contorções do corpo se foram, como a areia se esvai na ampulheta, minha memória se esvai de mim e já não sou, fui-me também. Tolo eu.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Eu podia ficar lá olhando o tique do relógio que tentava, sem sucesso, avançar. Fossem dois, três, talvez quatro ou mais anos atrás; fosse quem eu já fora. Os ponteiros de hora e minuto esperam pacientes em algo que imagino ser 04:13, alguma coisa antes dos quinze minutos e prefiro que seja quatro horas da manhã. É mais divertido na minha cabeça e um horário que considero reconfortante. Eu teria pensado isso tudo e ficado minutos - quiçá horas - olhando a cena. Mas já não era mais assim.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Preciso. Meu corpo precisa deitar, minha mente escorregar pra longe, na última noite babei no travesseiro; ia tudo tão bem, quando me dei essa rasteira pra voltar a essa vida? Meu estômago ronca de vazio e coisa mal digerida ao mesmo tempo, o dinheiro extra que fiz semana passada parece que nunca existiu, as garrafas se esvaziaram e nem vi. Tenho coisas, quero coisas, adoro fogo. Eu preciso disso aqui. Tudo mais é dispensável, eu me dispenso se tiver como escrever. As teclas são uma maravilha e o barulho é uma sinfonia própria da tempestade de minha alma. Mas pode ser caneta, lápis, giz, pedra no asfalto, sangue na parede; qualquer coisa que me deixe escrever. Se fico sem, me contorço, as palavras correm em minha cabeça, minha mão treme a despeito da minha precisão motora, a loucura é tão deliciosa. A solidão não me bate, é apenas um espelho. O silêncio da madrugada é o meu abismo pessoal. Pra jogar pedras, ouvir o eco ou me jogar. Em algumas noites eu me apaixono pela lua. Amo o caos. Se eu parecer muito aleatório, só estou me alimentando de desordem. mas Preciso me controlar senão me consumo sem ver o mundo queimar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Os musgos vestem o chão, as ervas entrelaçam o telhado. As janelas quebradas na borda e de tão velhas não aparentam a sujeira. O sol reflete em algum metal perdido no quintal vizinho. Ao fundo, um oceano de morros que parece dançar ao vento. Meus olhos pesados caem sobre a paisagem. Talvez escolhesse uma vida de contemplação; fossem outros ares, fossem outros amores, não fosse a ira, fosse a dor escada para elevação e não âncora à loucura. Minha melancolia os pesa; e digo minha por ser só minha, nascida em mim; daqui de dentro pro meu rosto e gestos. Ah, essa alegria triste e fúnebre me revolve as entranhas, me mastiga por dentro e eu mordo meus dedos.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Tiro a máquina de sua caixa. Coloco na mesa, sirvo a cachaça. Acabou o dinheiro do conhaque. A cachaça escondo na geladeira pra não evaporar. Talvez sacar a máquina faça mais sentido visto que disparo minha alma nela ou com ela. Tudo é meu novamente, a construção ao lado parada; é domingo. É engraçado ou ridículo fugir da casa dos pais na adolescência e acabar morando com outras pessoas. O aluguel é um absurdo e se o contrato fosse sincero vinha cobrando os olhos e a cara, talvez a alma, vez ou outra o corpo. Por isso juntamos vários e pagamos em dinheiro. Se você diluir uma pessoa o suficiente, sai dinheiro. Tranco as portas girando a chave o máximo possível. Quero o silêncio só pra mim, quero o barulho das teclas ecoando pela casa.
Minhas mãos não tremem, isso já passou. Movo os dedos freneticamente mas é preciso o ritmo certo para não travar as teclas. Minha mente corre muito a frente, minha língua tropeça só de lembrar. Pra mim, loucura é algo tão rotineiro quanto a chuva, talvez mais. Será que hoje fico louco? E se ficar, volto cedo? Volto? Sei que volto, correntes servem pra isso.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Acordo às dez nessa sexta-feira. A desculpa? Feriado.
É tudo tão insípido; então vou atrás das `saborosas bebidas que compro`, afundo meu salário ali. Vale cada amaldiçoado centavo.
Estômago vazio, sobe rápido. Penso no circo semanal, na palhaçada que são os outros, também sou palhaço.
Tenho o quarto todo pra mim. Tenho a casa toda pra mim.
Tenho o prédio todo pra mim. Tenho o bairro todo pra mim.
De uma forma bizarra, todos os vizinhos saem para serem recebidos e não recebem em seu lar. Fica tudo tão quieto, o vento sopra devagar; o trem apita longe; o sol aquece de mansinho.
Mas fico sentado na sombra, caneta, papel e garrafa.
Tenho uma tristeza intrínseca. Tenho um ódio enraizado. Se tivesse eu uma cabeça boa, resolveria isso tudo fácil. Motivo não vejo, vontade não tenho; o dia passa lento, os livros acumulam poeira. Adotei uma doença de escrever e não ler.